A crônica que segue é a minha participação no livro da Faculdade de Artes e Comunicação da UPF (Universidade de Passo Fundo)que já está pronto!!
Ei, você! Eu estou aqui!
Glaucia de Cesaro
O ônibus estava lotado. De pé, em frente a uma janela, eu me segurava em uma barra de ferro para manter o equilíbrio. Enquanto íamos nos movimentando pela cidade, eu olhava o que passava correndo pelas vidraças entre abertas do veículo.
Em um ponto debaixo de um viaduto, o ônibus parou para embarcar e desembarcar passageiros porém, demorou mais do que o normal. Então, continuei a olhar pelos vidros o que acontecia lá fora.
Entre os carros que passavam velozmente pelas vias, vi um homem caminhando com um papelão nas mãos. Suas roupas eram sujas e velhas, sua pele queimada do sol e judiada pelo tempo, não me deixaram saber sua idade. Fixei meu olhar naquele homem que estendia o papelão no chão para descansar. Ao examiná-lo mais de perto, mesmo a certa distância, percebi que ele também parou o olhar em mim. Pareceu fuzilar meus olhos e como se quisesse dizer algo, me acenou. Enquanto o ônibus ia vagarosamente se mexendo, sua imagem corria pelas vidraças e já ao longe, eu ainda o enxergava acenando para mim.
Depois que ele sumiu dos meus olhos, me debati entreolhando para os lados na esperança que mais alguém tivesse visto aquela cena. Ninguém. Ninguém notou a sua existência e o seu pedido de ajuda, ou talvez quem sabe, um simples ato de carinho como um “oi” ao acenar. Estavam todos mergulhados em seus mundos de fofocas, celulares e mps qualquer coisa, que nem se sequer deram uma espiada no que acontecia do outro lado da janela. Desolada, encostei minha cabeça no braço que segurava na barra de ferro e segui meu caminho pensando naquele homem e naquilo que talvez ele quisesse dizer com o seu gesto.
Será que havia sido somente um cumprimento, um “olá”? Ou será que havia sido um “olha eu aqui!” ou um “eu também existo!”. Passei o dia me questionando mas, não achei resposta alguma. A única e triste conclusão que cheguei foi que ninguém se importa com aquilo que um “qualquer” necessita, seja de um teto, de comida ou simplesmente de pura atenção.
As pessoas andam tão egoístas, pensam tanto em si mesmas e naquilo que é bom só para elas que esquecem de todo o resto, que na verdade não é resto algum. É todo. É tudo aquilo que passa por nossos olhos diariamente e não vemos. É tudo aquilo que não queremos ou que temos medo de enxergar. É a consequência de nossos atos, ou melhor, de não-atos. É a sociedade afogando valores em um mundo onde tudo virou personalizado.
No fim do dia, de volta para casa, passei pelo mesmo lugar. Olhei para debaixo do viaduto, e não encontrei mais ninguém lá. Segui meu caminho com as costas pesadas de culpa por fazer parte dessa sociedade que só tem olhos e pensamentos para o próprio umbigo. A partir daquele momento, percebi que independente daquilo que o “homem do viaduto” quis dizer ao acenar, eu finalmente havia entendido a sua mensagem.
Amica mia... ja conheço esta, mas agora que o livro saiu, só tenho a dizer que é um retrato da realidade e que é uma pena que existam tantas pessoas nas condições de miséria total no país.
ResponderExcluirParabéns novamente pelas crônicas bem concisas e coerentes, pelo dom de escrever bem.
Bacio